Jornada da Economia - Tudo o que a sua empresa precisa saber sobre a variação do dólar

19/05/2021, por Luís Artur Nogueira, Economista, Jornalista e Palestrante. 

Previsão sobre o câmbio está no topo da lista de demandas feitas por empresários e executivos a economistas, seja por questões comerciais ou até mesmo por curiosidade familiar (tem sempre alguém planejando uma viagem internacional de férias). Não há reunião ou evento econômico sem que alguém da plateia lance mão da mais terrível das perguntas para qualquer economista: qual a cotação do dólar em tal dia? Então resolvi trazer esse tema para a nossa Jornada da Economia, uma parceria de conteúdo com a SAP Concur.

Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real, certa vez disse que “o câmbio foi criado por Deus para humilhar os economistas”. “Nunca se sabe para onde ele vai”, arrematou. Bacha tem razão.

Prever o câmbio é uma tarefa difícil em qualquer parte do mundo, mas ainda pior no Brasil. Explico: em países desenvolvidos, suas moedas costumam seguir uma lógica internacional em relação ao dólar, o que nem sempre acontece no Brasil.

Quando o Federal Reserve (Fed) reduz os juros, por exemplo, há uma diminuição na procura dos estrangeiros por títulos públicos americanos (conhecidos como Treasuries) e, consequentemente, o dólar perde valor contra as principais moedas. Neste exemplo, o real também deveria se fortalecer ante o dólar, mas basta um ruído político em Brasília para que o cenário externo seja praticamente ignorado. E lá vai o dólar para as alturas...

Significa, portanto, que o peso do “Risco Brasil” no nosso câmbio é, na minha opinião, o principal fator a determinar se o dólar sobe ou desce no País.

Por “Risco Brasil” entende-se tudo que pode afetar a percepção de risco que o estrangeiro tem em relação ao nosso País. A lista é enorme e pode incluir pautas-bomba no Congresso, decisões inesperadas do Supremo Tribunal Federal (STF), declarações estapafúrdias dos nossos governantes etc. 

Isso dito, vamos analisar o que aconteceu durante a pandemia. O dólar passou de um patamar de R$ 4,50 em março de 2020 para R$ 5,80 apenas um ano depois. Não é pouca coisa. Estamos falando de uma desvalorização cambial de quase 30%.

Deixando de lado o combalido peso argentino, o real foi a moeda que mais perdeu valor entre os países emergentes. Na lista do “Risco Brasil” estavam os números elevados de mortes por Covid-19 (o pico foi de quatro mil por dia), o atraso na vacinação, os “lockdowns”, as brigas entre governadores e presidente da República, decisões estranhas do STF etc. Na prática, os estrangeiros ficaram o medo e tiraram seus dólares do mercado financeiro brasileiro.

 Nas últimas semanas, o movimento foi no sentido contrário, com a moeda americana caindo a R$ 5,25, uma valorização cambial de 10% em relação ao pico. Neste caso, alguns fatores aliviaram o “Risco Brasil” como o anúncio de novos contratos de vacinas (serão 200 milhões de doses da Pfizer ainda em 2021), a queda no número de mortes (a média móvel diária está abaixo de duas mil), a reabertura da economia com menos “lockdowns” e a alta de juros no Brasil, que ajuda a atrair dólares.  

A “euforia” foi tanta nas últimas semanas que o jornal Valor Econômico trouxe uma matéria com previsões de dólar a R$ 4,50. Eu, particularmente, não acredito neste cenário.

Não estou afirmando que é impossível o dólar cair abaixo dos R$ 5,00 nos próximos meses, mas esse cenário só seria factível, na minha opinião, se o Congresso aprovasse a Reforma Tributária e a Reforma Administrativa ainda em 2021. Seria tão maravilhoso que o real ganharia valor frente ao dólar independentemente do cenário externo.

Creio que a Reforma Tributária, ainda que numa versão compacta, tenha mais chances de avançar do que a Reforma Administrativa. Concessões de infraestrutura e privatizações de estatais também podem acontecer, o que melhorará a percepção de risco do País. Além disso, o Banco Central do Brasil vai continuar subindo os juros para combater a inflação. Esses fatores ajudam a baratear o dólar no Brasil.

Por outro lado, existe a possibilidade de o Fed também subir juros, o que irá valorizar o dólar no mundo inteiro. Além disso, os nossos políticos teimam em antecipar o debate eleitoral de 2022, o que serve apenas para gerar ruídos e assustar os estrangeiros. Afinal de contas, a decisão do STF de recolocar o ex-presidente Lula no jogo eleitoral reaqueceu os ânimos ideológicos.

Isso tudo explicado, tenho sido muito cauteloso quando questionado sobre o dólar, desde o início da pandemia. Minha resposta é: “o Brasil precisa dar muito certo no curto prazo para o dólar cair e permanecer abaixo de R$ 5,00, e precisar dar muito errado para subir e ficar acima de R$ 6,00”. E acrescento: “o melhor dólar é o de hoje, pois você conhece a sua cotação. Já o dólar de amanhã...”

Até agora, eu tenho acertado. O dólar vem oscilando entre R$ 5,20 e R$ 5,80 na montanha-russa da pandemia. Reconheço que uma banda entre R$ 5,00 e R$ 6,00 é muito ampla e confortável, mas como nos ensinou Edmar Bacha, não quero correr o risco de ser humilhado...

A Jornada da Economia disponibilizará, a cada quinze dias, um novo conteúdo aos participantes no site https://www.concur.com.br/news-center, nas redes sociais da SAP Concur e no canal gratuito do Telegram. A ideia é proporcionar o acompanhamento da evolução do cenário econômico para que ninguém seja pego de surpresa e possa tomar as melhores decisões corporativas.

 


Luís Artur Nogueira, economista, jornalista e palestrante, é colunista da ISTOÉ Dinheiro e do Portal iG, e debatedor no programa “Opinião no Ar”, na Rede TV!. A Jornada da Economia é uma parceria de conteúdo entre ele e a SAP Concur. Participe do grupo Jornada da Economia, no Telegram, e receba tudo em primeira mão!